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Agronfy
Capítulo 21 do livroInovações e Desafios na Produção Agroindustrial de Alimentos

Abordagem simplificada para modelagem do crescimento de Listeria monocytogenes em fatias de queijo branco embalado a vácuo

  • Luany Eleutério de Oliveira
  • Lucas Bomfim da Silva
  • Maria Fernanda Neiva
  • Ellen Godinho Pinto
  • Dayana Silva Batista Soares
  • Ana Paula Stort Fernandes
  • Wiaslan Figueiredo Martins
DOI10.53934/agronfy-2025-03-218 min de leitura

Resumo

Este estudo vai se tratar sobre o crescimento de Listeria monocytogenes em queijos branco fatiado, embalado a vácuo e armazenado em diferentes temperaturas, sendo elas 5 °C, 10 °C, 15 °C e 20°C. Foi utilizado o software ComBase para se obter dados experimentais e com base no trabalho de Ulich (1), o crescimento bacteriano foi modelado por meio dos modelos de Baranyi e Roberts. A pesquisa revela como as condições de armazenamento influenciam a proliferação do patógeno, destacando a importância do controle de temperatura para a segurança de alimentos. Os resultados mostraram boa adequação dos modelos aos dados experimentais, com destaque para o modelo linear, que apresentou o melhor ajuste. O modelo linear apresentou o melhor ajuste aos dados, com um coeficiente de determinação de 0,9859, superior ao obtido pelo modelo exponencial, que alcançou 0,9652, indicando sua maior precisão para descrever o crescimento bacteriano nas condições avaliadas. Além disso, a temperatura desempenhou um papel crucial na velocidade específica máxima de crescimento, ao comparar os valores em 5 °C (0,0116) e 20 °C (0,103), observou-se um aumento significativo, de aproximadamente 11%, destacando a influência direta da elevação da temperatura no comportamento bacteriano. Esses achados reforçam a necessidade de implementar práticas rigorosas de controle de temperatura ao longo de toda a cadeia produtiva e de distribuição de queijos embalados.

Palavras-chaveComBaseListeria monocytogenesqueijo brancotemperaturavácuo

INTRODUÇÃO

O queijo branco em suas diversas formas é amplamente apreciado e consumido no Brasil e no mundo. Reconhecido por sua versatilidade, sabor leve e características nutricionais, ele ocupa lugar de destaque na dieta de muitas pessoas. Contudo, sua natureza altamente perecível e o processo de produção artesanal ou industrial envolvem riscos significativos de contaminação microbiológica, que podem comprometer a qualidade do alimento e a saúde do consumidor (2).

Entre os microrganismos de maior relevância na contaminação de queijos destaca-se a Listeria monocytogenes, uma bactéria patogênica capaz de causar a listeriose, doença de impacto severo, especialmente em gestantes, recém-nascidos, idosos e pessoas imunocomprometidas. Esse microrganismo apresenta características que dificultam seu controle, como a capacidade de crescer em baixas temperaturas, tornando-se uma preocupação constante na indústria de alimentos (3). Estudos apontam sua presença em queijos que podem estar relacionados à inadequação de práticas de higienização, manipulação e armazenamento, além de falhas no controle de qualidade durante a fabricação (4).

Com a evolução das práticas industriais, a embalagem a vácuo tem sido amplamente utilizada como estratégia para prolongar a vida útil de queijos e proteger contra contaminações externas. Apesar de suas vantagens, a eficácia desse método depende de fatores como a qualidade inicial do produto e as condições de armazenamento, incluindo temperatura, umidade e tempo de conservação. Essas variáveis podem influenciar diretamente a proliferação de patógenos, mesmo em produtos embalados (5).

O estudo das condições de armazenamento também tem papel central nesse contexto. A manutenção de temperaturas adequadas e o controle do ambiente de estocagem podem retardar o crescimento microbiano, aumentando a segurança de alimentos e garantindo a qualidade do produto. Nesse sentido, a utilização de mecanismos como a microbiologia preditiva permite prever o comportamento de microrganismos em diferentes cenários, subsidiando ações mais eficazes para o controle de risco (6).

A pesquisa científica nesse campo não apenas contribui para a segurança, mas também impacta positivamente a indústria de alimentos, promovendo inovação tecnológica e sustentabilidade. Investigações detalhadas sobre os mecanismos de contaminação e as formas de mitigação permitem o desenvolvimento de soluções que atendem aos padrões rigorosos de qualidade e às expectativas dos consumidores. Por meio de um esforço conjunto entre ciência, tecnologia e indústria, é possível minimizar os riscos associados ao consumo de queijos e oferecer produtos mais seguros e saudáveis (7).

Nesse artigo, exploramos os principais desafios relacionados à produção, contaminação e conservação de queijos brancos embalados a vácuo, com foco na influência das condições de armazenamento, principalmente temperatura, sobre o comportamento microbiano, ressaltando a L. monocytogenes. Também discutimos os avanços tecnológicos e científicos que têm contribuído para melhorar a qualidade e segurança desses alimentos, dando destaque para práticas baseadas em evidências do setor de laticínios. Assim, objetivou-se utilizar uma abordagem simplificada para modelar o crescimento de L. monocytogenes em queijo branco fatiado, embalado a vácuo e armazenado em diferentes condições isotérmicas utilizando o Combase.

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados utilizados para compor esse estudo foram retirados do software ComBase, utilizando a categoria de alimentos “cheese”, o microrganismo “Listeria monocytogenes” e uma faixa de temperatura entre 5 °C e 20 °C, pH 6,8 e atividade de água (aw) 0,971. A partir disso foram selecionadas informações referentes ao crescimento (log10 UFC/g) de L. monocytogenes em queijo branco fatiado, considerando 4 temperaturas de armazenamento: 5 °C, 10 °C, 15 °C e 20 °C. Esses dados foram extraídos do estudo conduzido por Ulich (1), intitulado “Effect of storage temperature on the growth on Listeria monocytogenes on queso blanco slices”, o qual foi publicado no “Journal of Food Safety”.

Para realizar uma análise mais biológica sobre a presença de microrganismos e seus efeitos nos alimentos armazenados, foi empregado o modelo matemático de Baranyi e Roberts (8). Esse modelo descreve a dinâmica do crescimento microbiano ao longo do tempo, sendo um modelo sigmoidal primário com uma função de ajuste, representado pelas equações 1, 2 e 3. O modelo foi ajustado às curvas experimentais de Listeria monocytogenes em fatias de queijo branco embaladas a vácuo armazenada a diferentes temperaturas.

Nas equações, y(t) representa o logaritmo da concentração de microrganismos N (UFC/g) no tempo t (horas), ou seja, y(t) = log [N(t)]. O parâmetro μmáx corresponde à velocidade específica máxima de crescimento (h–1); λ indica a duração da fase de latência (h); y é o logaritmo da concentração inicial de microrganismos, com y0 = log (N0); Ymáx é o logaritmo da concentração máxima, com Ymáx = log (Nmáx); h0 é um parâmetro relacionado ao estado fisiológico das células (adimensional); e F(t) representa a função do modelo de Baranyi e Roberts.

O modelo secundário linear (Eq. 4) e exponencial (Eq. 5) foram usados para descrever o efeito da temperatura na velocidade específica máxima de crescimento (μmáx), em que a, b e c são parâmetros empíricos e T é a temperatura de armazenamento (°C).

Os ajustes do modelo primário aos dados experimentais de crescimento de L. monocytogenes, em fatias de queijo branco embalados a vácuo nas temperaturas de 5 °C, 10 °C, 15 °C e 20 °C foram feitos utilizando o DMFit online, por meio da interface do ComBase. O ajuste foi realizado em uma única etapa, permitindo a obtenção dos parâmetros μmáx, λ, y0 e ymáx.

Para avaliar a performance do modelo primário, foram utilizados o Coeficiente de Determinação (R²) e o Erro Padrão (EP) do ajuste, obtidos no DMFit. Um valor de R² = 1 e EP = 0 indicam uma correspondência perfeita entre os dados experimentais e os valores ajustados dos modelos para o parâmetro μmáx em função da temperatura de armazenamento.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados experimentais utilizados neste estudo foram extraídos da pesquisa de Ulich (1). Neste trabalho, os autores investigaram o crescimento de L. monocytogenes em fatias de queijo branco de estilo hispânico, conhecido como “Queso Blanco”. Sua produção é comumente realizada de forma artesanal, até mesmo em residências utilizando leite cru, o que dificulta ainda mais o controle de qualidade sobre esses alimentos.

As curvas de crescimento do microrganismo foram elaboradas a partir de pesquisas realizadas em fatias de queijo branco, observando a influência da temperatura sobre o crescimento de L. monocytogenes nas seguintes temperaturas: 5 °C, 10 °C, 15 °C e 20 °C. O modelo de Baranyi e Roberts foi ajustado aos dados com auxílio do software ComBase, o qual apresentou um ótimo desempenho em todas as condições analisadas.

Diante dos resultados, pode-se afirmar que a temperatura é um fator determinante no desenvolvimento de microrganismos. Cada espécie possui uma faixa de temperatura específica para sua multiplicação, abrangendo limites mínimo, ótimo e máximo. Esse fator influencia diretamente o crescimento microbiano e a velocidade de multiplicação, que aumenta à medida que a temperatura se aproxima do valor ótimo (9). Ao observar a figura 1 e a tabela 1 é possível verificar que a velocidade específica máxima de crescimento de L. monocytogenes em queijo branco variou de 0,0116 h-1 a 0,103 h-1 para as temperaturas de 5 °C a 20 °C, respectivamente, demonstrando que a velocidade é diretamente proporcional com o aumento da temperatura. Segundo Fagundes et al. (10), armazenamento em baixas temperaturas é utilizado para diminuir o crescimento da população microbiana, porém, é importante destacar que períodosprolongados de estocagem nessas condições aumenta o risco de alterações no produto devido à ação de microrganismos psicotróficos, como os do gênero Pseudomonas spp.

Ao observar os resultados da figura 2, é possível verificar de forma qualitativa que ambos os modelos apresentam bom ajuste aos dados experimentais, sendo os modelos secundários representados na tabela 2 aptos a serem usados para predizer a velocidade específica máxima de crescimento de L. monocytogenes nas condiçõesABestudadas e em condições que não extrapolam a temperatura no intervalo entre 5 °C e 20 °C.

Os modelos citados acima, exponencial e linear apresentaram valores acima de 0,9, revelando que os resultados expressam um ajuste satisfatório (11), o modelo de maior destaque foi o linear, já que o seu resultado foi o mais próximo de 1 chegando a um R2 de 0,9859 e o exponencial alcançando um R2 de 0,9652.

CONCLUSÕES

Os resultados desta pesquisa evidenciam a importância do controle térmico na conservação de Listeria monocytogenes em queijo branco fatiado embalado a vácuo, destacando a suscetibilidade da bactéria a temperaturas controladas. Observou-se que temperaturas isotérmicas mais elevadas promovem a multiplicação bacteriana, elevando o risco à segurança dos alimentos. O modelo linear mostrou-se o mais adequado para descrever o crescimento bacteriano nas condições avaliadas, reforçando sua aplicabilidade em estudos preditivos. Esses achados evidenciam a necessidade de práticas rigorosas de controle de temperatura ao longo da cadeia de produção e distribuição de queijos embalados. Além disso, sugerem que investigações futuras explorem a influência de outros parâmetros, como pH, atividade de água e diferentes formulações de queijos, para aprimorar estratégias de segurança e qualidade no setor lácteo.

REFERÊNCIAS

1. Uhlich GA, Rogers DP, Mosier DA. Effect of storage temperature on the growth ofListeria monocytogenes on Queso Blanco slices. J Food Saf. 2006;26:202-14.

2. Silva NT, Lima JE, Oliveira LS. Condições de produção, transporte ecomercialização de leite e derivados em municípios brasileiros [Internet]. Brasília, DF:Embrapa; 2010 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em:http://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/handle/doc/878429

3. Navarro G, Guzmán A, Torres M. Producción lechera en sistemas de pequeña escalaen América Latina. Rev Latinoam Prod Anim [Internet]. 2010 [acesso em 2024 nov24];18(1):1-17. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/929/92970208.pdf

4. Raimundo DC. Caracterização molecular e fenotípica de isolados de Salmonella spp.oriundos de amostras avícolas e de produtos de origem avícola [tese na Internet]. SãoPaulo: Universidade de São Paulo; 2013 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em:https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/10/10134/tde-28062013-091254/publico/DANIELE_CRISTINE_RAIMUNDO_Original.pdf

5. Correia MS. Caracterização de compostos orgânicos voláteis em vinho pormicroextração em fase sólida acoplada à cromatografia gasosa [dissertação na Internet].São Paulo: Universidade de São Paulo; 2014 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em:https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/74/74132/tde-29012015-155346/publico/ME7902520COR.pdf

6. Santos AN. Desenvolvimento de pão de queijo com substituição parcial da goma detapioca por farinha de grão-de-bico [monografia na Internet]. Goiás: Instituto FederalGoiano; 2023 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em:https://repositorio.ifgoiano.edu.br/itstream/prefix/3258/1/TCC_Aline%20Nunes%20dos %20Satos.pdf

7. Cândido GA, Nóbrega RS, Figueiredo AS, Souto Maior JRP. Avaliação dasustentabilidade de unidades de produção agroecológicas. Ambiente & Sociedade.2015;18(3):99-120 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em: https://www.scielo.br/j/aib/a/bnRYSS XNWzxQ7fvWdvz3qqn/. Acesso em: 25 nov. 2024.

8. Baranyi J, Roberts TA. A dynamic approach to predicting bacterial growth infood. International Journal of Food Microbiology 1994; 23:277-294.

9. Oliveira R, Silva A, Souza J. Modelagem matemática do crescimento dePseudomonas spp. em carne suína [monografia na Internet]. Goiás: Instituto FederalGoiano; 2023 [acesso em 2024 nov 24]. Disponível em:https://repositorio.ifgoiano.edu.br/ bitstream/prefix/4413/1/1%20-%20Capi%CC%81tulo%2031%20-%20MODELAGEM%20MATEMA%CC%81TICA%20DO%20CRESCIMENTO%20DE%20PSEUDOMONAS%20SPP.%20EM%20CARNE%20SUI%CC%81NA.pdf

10. Fagundes CM, et al. Presença de Pseudomonas spp. em função de diferentes etapasda ordenha com distintos manejos higiênicos e no leite refrigerado. Ciência Rural 2006;36:568-572.

11. Ross T. Indices for performance evaluation of predictive models in foodmicrobiology. J Appl Bacteriol. 1996;81:501–8.

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Como citar

ABNT
OLIVEIRA, Luany Eleutério de; SILVA, Lucas Bomfim da; NEIVA, Maria Fernanda; PINTO, Ellen Godinho; SOARES, Dayana Silva Batista; FERNANDES, Ana Paula Stort; MARTINS, Wiaslan Figueiredo. ABORDAGEM SIMPLIFICADA PARA MODELAGEM DO CRESCIMENTO DE Listeria monocytogenes EM FATIAS DE QUEIJO BRANCO EMBALADO A VÁCUO. In: MARTINS, Wiaslan Figueiredo; FERNANDES, Ana Paula Stort; SOARES, Dayana Silva Batista; PINTO, Ellen Godinho; RIBEIRO, Erlon Alves; BOENO, Josianny Alves; FERREIRA, Suzane Martins; CARVALHO, Vania Silva (org.). Inovações e Desafios na Produção Agroindustrial de Alimentos. Agronfy, 2025. ISBN 978-65-85062-23-7. DOI: https://doi.org/10.53934/agronfy-2025-03-21.
APA
Oliveira, L. E., Silva, L. B., Neiva, M. F., Pinto, E. G., Soares, D. S. B., Fernandes, A. P. S., Martins, W. F. (2025). ABORDAGEM SIMPLIFICADA PARA MODELAGEM DO CRESCIMENTO DE Listeria monocytogenes EM FATIAS DE QUEIJO BRANCO EMBALADO A VÁCUO. In W. F. Martins, A. P. S. Fernandes, D. S. B. Soares, E. G. Pinto, E. A. Ribeiro, J. A. Boeno, S. M. Ferreira, V. S. Carvalho (Orgs.), Inovações e Desafios na Produção Agroindustrial de Alimentos. Agronfy. https://doi.org/10.53934/agronfy-2025-03-21
Vancouver
Oliveira LE, Silva LB, Neiva MF, Pinto EG, Soares DSB, Fernandes APS, et al. ABORDAGEM SIMPLIFICADA PARA MODELAGEM DO CRESCIMENTO DE Listeria monocytogenes EM FATIAS DE QUEIJO BRANCO EMBALADO A VÁCUO. In: Martins WF, Fernandes APS, Soares DSB, Pinto EG, Ribeiro EA, Boeno JA, et al, organizadores. Inovações e Desafios na Produção Agroindustrial de Alimentos. Agronfy; 2025. doi:10.53934/agronfy-2025-03-21
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